A sensação que tenho é que MAC71010-022 é um lugar pelo qual eu já passei. Apenas um lugar. E sempre que volto a passar por ali penso que este lugar me lembra muito alguém que um dia eu já conheci... Este lugar no qual eu esbarro sem querer, este lugar que não leva a nenhum lugar.
É onde eu estive parada por meses, na maioria das vezes dormindo, onde quase nenhum movimento acontecia enquanto a vida passava. Não quero me arrepender de ter passado tanto tempo parada no mesmo lugar. Porque até aqueles lugarejos que ninguém vê quando se passa na estrada levam a alguma experiência. E, confesso, me encantei pelo que vi no meio do caminho. Aquele carnaval de sorrisos e máscaras, promessas sedutoras.
Então parei e tirei muitas fotos dali, eu quis levar luz e cor e jardins e vida, eu quis fazer parte, eu quis morar naquela vilazinha de habitantes contados e suas famílias fechadas e seu cão-pastor. Mas sempre fui uma estranha lá. Agora sei que estava mesmo na hora de voltar pra casa, mesmo sendo expulsa do lugar sem ninguém me perguntar sobre o que eu queria, para onde eu iria. Apenas decidiram escolher a minha ausência. Quando vou ter coragem de queimar os mapas que levam ao lugar sem volta?
Agora, 20h50min. Björk é a melhor companhia pra se deitar e olhar o reflexo dos faróis dos carros passando pela parede. A moça disse tudo o que eu tinha que ouvir. Tudinho. Não consigo mais tirar esta música do repeat, marcando a noite de despedida do radinho e moi.
ALL IS FULL OF LOVE
you'll be given love
you'll be taken care of
you'll be given love
you have to trust it
maybe not from the sources
you have poured yours
maybe not from the directions
you are staring at
trust your head around
it's all around you
all is full of love
all around you
all is full of love : you just ain't receiving
all is full of love : your phone is off the hook
all is full of love : your doors are all shut
Hum. Este blog é só pros meus amigos. Acho que pouquíssimas pessoas têm este endereço. Mesmo assim, queria pedir a todos que aqui entrarem que por gentileza se identifiquem nos comments, só pra eu ter noção de quantas pessoas têm o meu link. Depois eu checo cada um na url do counter. Qualquer coisa, se precisar mudar de endereço por causa de stalkers, os meus amigos vão receber a nova url por e-mail. Autopreservação, meus queridos, parece ser a palavra da semana, aqui e ali.
Obrigada.
Sopinha de galinha. O perfume maternal de gente velha, os sons da novela entrando pelo quarto, iluminado somente pela luz do banheiro. Trinta e nove graus de febre, garganta inflamadíssima, pra variar. Faziam quase dois anos que isso não acontecia comigo. Esperava suar tudo de ruim junto com a febre. Liguei pra mãe, liguei pros amigos. Minha tia-avó entrava no quarto de 10 em 10 minutos pra rezar. Dor de cabeça, no corpo... tudo queima, tudo de ruim que está amarrado nos meus nervos está sendo queimado.
(...) Quanto mais tento passar por algo legal, me distrair, mais merda vem. Nunca mais quero ir a certas festas, passei por experiências péssimas. Agora eu só quero ficar quieta no meu canto, só quero me curar de tudo o que vem acontecendo, desintoxicar a minha vida. Todas as merdas vão passar, e sei que um dia vou rir muito de tudo isso. Ainda quero me apaixonar de novo, sentir aquele friozinho na barriga com alguém, e no dia seguinte à festa pensei que não ia querer ver homem tão cedo. Mas hoje eu já desejo, apesar de agora preferir me preservar a passar por qualquer coisa com qualquer um. Só se valer muito a pena, depois de tudo aprendi a ser exigente. E isso é bom.
Hoje mesmo eu tou muito melhor, a febre baixou e as minhas amigas vêm me visitar, pra gente assistir comédia romântica. Todos estão sendo muito legais comigo. Sexta-feira foi ótimo encontrar a Nat, o Pedro, o Marcello. Eles sempre me tratam super bem e ficam felizes quando a gente se encontra. Experimentamos pinga de sucupira pra ver se fazia bem pra garganta, hehe. Eca, deve ser melhor tomar aquela injeção horrível que eu tomava quando pequena, bezeta alguma coisa. A Nat me disse algumas coisas legais que até me fizeram repensar certas atitudes. Até mesmo pra evitar passar por apuros de novo. Outra pessoa que foi muito legal comigo foi a Suzana. Passei por um grande holy-moment com ela. Daquelas conversas que a gente se conecta de verdade com a pessoa, a gente mostra quem realmente é sem medo, sem máscaras. Muitas trocas de idéias. Recomendei Dogville a ela. Tive muitas novas inspirações depois desta conversa. Mais uma vez, ela me encorajou a fazer as minhas coisas, a criar o meu trabalho, a viver a minha vida. Espero ainda poder criar muitas coisas legais com ela, que me deu muita força quando eu estava me sentindo pessimamente mal. Esta noite sonhei que na casa dela tinha um desenho meu. Também sonhei com o ex, algo sobre vampiros, e depois sobre transar. Acho que isso faz parte de fim de relacionamentos, então não me impressionei muito. Já sonhei muito pior, sonhei que estava morta num caixão de flores e ele chegou no velório e cuspiu no meu rosto (exatamente como eu disse que faria com ele... claro que foi só na hora da raiva, porque o considero apesar e acima de tudo), então o meu pai começou a bater muito nele e eu assistia e não podia fazer nada. Eu, hein. Só quero é paz...
Deu pra perceber que hoje estou naqueles "querido-diário-days". Principalmente porque aqui no blog dá pra mandar novidades pros meus amigos todos de uma só vez. Queria ainda contar muito mais coisas, queria matar todas as saudades. Queria ver Kill Bill com o Felipe e comer sushi. Queria encontrar a Vânia e conversar tomando vinho e olhando as luzes de Sobradinho. Queria escrever muitas histórias sobre todas as pessoas legais que eu tenho encontrado. Sobre as janelas se abrindo, sobre o sol que eu posso aproveitar lá fora. Sobre as pinturas que estão ficando um desastre de feias, sobre as fotografias que eu ainda nem revelei. Sobre a serigrafia que eu quero fazer sobre uma tela gigante pra depois meter um monte de tinta por cima. Sobre as composições que eu não consigo controlar e sempre ficam muito confusas. Sobre os milhões de textos que ainda estão trancados. Sobre os trabalhos que eu quero fazer junto com as pessoas. Sobre as crianças que eu quero encontrar pra me fazer feliz. sobre os velhinhos que podem me ensinar sobre a vida. Sobre os amores, sempre. Nunca vi gente pra ter coração tão grande quanto o meu. Isto às vezes me traz muitos problemas. Sobre as desculpas que eu peço, sobre o equilíbrio que eu espero. Sobre as palavras que eu tenho que engolir. E sobre as palavras que eu tenho que dizer/escrever. Sobre as viagens que eu estou planejando, sobre desfrutar a minha vida, sobre ser EU. Sobre como eu amo todos os meus amigos, meus parentes. Ainda tenho muito o que agradecer, muitos abraços a devolver. Vou escrever uma ode a todos eles. sucha piegas, piegas day! But a happy day.
Continuando, ontem passei quase uma hora ouvindo Cody-Come On Die Young-Mogwai- deitada na cama-quarto-apartamento 101-206 sul-Asa Sul-Brasília-DF-Brasil- no som que o Moisés-ex-namorado-Guará-DF-Brasil me emprestou e eu preciso devolver, naquela desagradável e típica cena de fim de namoro. Um devolvendo a coisa do outro como se fossem estranhos que acharam algo na rua. Mas isto não deve mais ser mencionado pela minha boca, porque sempre que toco no assunto, uma pessoa morre em algum canto do mundo. Às vezes eu penso que bem que poderia ser eu a próxima. Mas acho que ainda não fiz no mundo o que eu devia fazer, então não vai ser agora. Para o desespero de uns e alívio de outros.
Então, eu ouvia Mogwai no quarto e abri a cortina para deixar as luzes da rua entrarem pra me fazer companhia. É muito bom deitar e olhar os quadradinhos brancos que elas formam por causa da grade da janela, e também é possível que se vejam as formas tortas das árvores. Quando passa um carro, os quadradinhos correm iluminando em fileiras horizontais a parede. As árvores também se mexem. Se o olhar ficar fixo em um ponto, vem uma tonteira incômoda e gostosa. Se o olhar focar toda a parede, parece que estou viajando de trem e olhando a paisagem pela janela.
Agora eu tenho que ir, vou sair do trabalho-IBICT-Brasília-DF-Brasil- pro ateliê de pintura-UnB-Brasília-DF-Brasil- e vou destruir mais algumas tintas e telas e papéis. Na última aula, estive empolgada tanto que respinguei tinta acrílica-Acrilex-cor 321-violeta cobalto- na tela em branco de uma colega. Ainda não encontrei-a para pedir desculpas.
Disse aos amigos: parece que acordei em outro mundo. Ontem foi um dia muito estranho, aliás têm sido muito estranhos os dias. Estranhos estes dias seguintes aos dias em que a vida me mordeu tão fundo e me arrancou enormes pedaços. Pedaços de carne, sangue, osso, gordura, cérebro. Onde será que foram parar? Como consigo ainda me manter fiel às promessas que fiz em segredo, mesmo depois de tudo ter mudado? Como consigo ainda ter pés se sinto que perdi as duas pernas? Como consigo sorrir tão verdadeiramente e gargalhar com tanta leveza, depois de tudo?
Hoje não consegui acordar. Meu corpo funciona e se movimenta, até pensa, mas não estou me sentindo consciente. No final da manhã, sentei-me na grama de casa, debaixo das árvores. Escolhi o lugar mais bonito, perto das flores rosa choque que caíram no chão. Sentei-me e fiquei olhando todas aquelas cores, elas sempre foram tão vivas assim? Eu sempre fui tão viva -e tão morta- assim?
E fiquei pensando por muitos minutos: de onde tem vindo tanto conforto no meio de tanta dor -e dor com razão, a dor da perda, a dor de mudança da vida que ninguém me perguntou se eu queria mesmo que mudasse- de onde vem a sensação que consegue parar de queimar o meu corpo? Não sei como as pessoas não conseguem acreditar em Deus, ou em qualquer força superior que faça a vida existir. Nem no sangue elas acreditam? Descobri que o sangue É o espírito, porque quando toquei a minha avó ela estava gelada, sem aquele calorzinho que o sangue vivo traz à pele. Isto porque ali não tinha mais sangue, nem mais espírito. Acho que os anjos e as almas e os fantasmas e Deus devem ser todos feitos de sangue, que lindo. Igual àquela escultura "Self", do Marc Quinn (procurem no google).
Nem eu mesma conseguia acreditar que existia alguma coisa divina no mundo, mas foi justamente quando conheci o que várias pessoas de diferentes crenças dizem sobre este tal Deus, e comecei a pensar logicamente sobre estas coisas, isto me fez sentido. Juntei a filosofia, juntei o budismo, juntei a yoga, juntei o cristianismo, juntei o pouco que sei sobre o mundo e o meu corpo, juntei as leituras do Jostein Gaarder e do Rubem Alves.
Mas claro que seria uma mentira dizer que eu comecei a acreditar só porque fazia sentido. Eu comecei a acreditar por necessidade. Quando a gente perde coisas muito grandes, algo incontavelmente superior à perda se revela. E eu só pude olhar e admitir. Dizem que a energia da vida está na nossa coluna vertebral. Eu acredito. Porque sem a coluna eu caio, e a minha coluna ainda está se (re)formando. Assim como a minha vida ainda está se (re)formando. É uma (trans)formação constante, e é tão feio e tão bonito quanto pintar. Acho que ainda sou um feto.
Admito que sou carne de divã, como diz uma amiga que me recomendou a psicanálise. Começo amanhã. Passei ontem e hoje sem os remedinhos, mas não dormi bem estas duas noites. E estou super lúcida. Falar coisas sem sentido faz bem, seja no analista, seja no blog, seja em pensamento. Isto me ajuda a esquecer o que realmente não faz sentido pra mim. Espero, um dia vou saber.
Esta noite sonhei com a primeira vértebra que perdi. A minha avó. Sonhei que ela estava na cozinha da casa da minha outra avó, e ela sorria e falava comigo e pegava as crianças no colo como uma santa segura os anjos pra não caírem do céu. Mas ela estava com o corpo morto, estava com a pele azulada e fria, mas os olhos dela... os olhos dela eram tão vivos! Isto me trazia tanta confiança, porque aqueles olhos verdes que eu herdei irradiaram mil belezas pela casa. A gente ficava junto, ela segurava o meu irmão Vítor no colo, e eu me sentia tão feliz por vê-la de novo, mas tão triste porque ela não estava com a pele quentinha e macia...
* O problema da esperança é que ela permanece a mesma do começo ao fim.
* Não compreender não faz amar menos.
Minha avó dizia: para ser feliz, a gente não precisa sair do lugar, a gente tem que ser o lugar. Ela me advertia com seu olhar de madrepérola.
Nada mais alto, banal e humano do que dizer: "eu sei ser feliz". Dor, susto, drama e tragédia, a gente já nasce sabendo. Saber ser feliz exige décadas para entender e, ao mesmo tempo, pede tão pouco. Basta um ter o outro. Ficar horas conversando abraçados. Não depender de lugares famosos, de restaurantes, de aventuras exóticas para contar depois. A felicidade é uma impressão, uma intensidade, que não há como descrever para os amigos.
O que desejamos não se diz, se arde. Saber ser feliz é se deliciar com bobagens e lembranças, brincadeiras e com a proximidade do corpo. Não deixar o corpo ser apenas um corpo.
Uma coisa que a Vânia sempre fala
Lembra que quem ama cuida???
E por isso não deixe nunca de estar perto da pessoa que você ama.
Não vou ficar longe das pessoas que eu amo.
Mesmo se algumas delas não me amarem mais.
Mesmo se os machucados forem tão grandes.
Mesmo se eu estivesse do outro lado do mundo.
Mesmo se as palavras tenham sido um dia tão más.
Mesmo se as coisas boas tenham sido esquecidas.
Mesmo se as coisas ruins tenham sido guardadas.
Mesmo se eu não pude às vezes ficar do lado delas.
Mesmo se eu não consegui entender suas dores.
Mesmo se o meu coração estiver fechado e o corpo frio.
Mesmo se elas não puderem mais viver comigo.
Mesmo se a palavra perdão sumir da face da Terra.
Mesmo se o universo inteiro estiver contra mim, eu não estou contra ele.
Nunca estive.
Não tem como ser doce agora. Bittersweet, talvez, porque acho que a doçura não me abandona, é uma condição natural. Os tempos estão difíceis, ou sempre foram? Não sei. Mas tempestades vêm, e se antes elas me levavam, agora luto pra não deixar que isso aconteça, para não me entregar. Penso em você me mandando ir em frente. Perder é sempre uma experiência profunda, mas sinto uma diferença muito especial nesta perda que sofri na sexta-feira santa.
Tomo cuidado pra não chorar ouvindo Conversa de Botas Batidas. A nostalgia está agora tão presente em tudo, parece até mais sólida que a realidade... Esta música me faz pensar em você e no vô, e no amor perdido, e em quando eu a ouvia no meu apartamento. Coisas que hoje não são mais o que foram. Coisas das quais me dá tanta saudade e eu não posso fazer nada pra tê-las de volta exatamente iguais ao que eram antes. É isso que dá tristeza, o desejo de querer estancar o ritmo da vida, querer entupir o caminho do meu sangue.
Parece impossível explicar como é angustiante a sensação de querer te ver mais uma vez, a minha vó Vaína que só eu sei como era, e procurar te tocar, te sentir como antes. Não resisti quando te vi ail, velada diante de todos os seus entes queridos. Tive que chegar perto, e não me contentei em olhar, eu queria tocar, sentir o seu rosto, o seu cabelo. Mas quando eu fui acariciar a sua face, ao invés daquela pele macia e morna tão familiar, senti uma textura totalmente desconhecida: a falta da vida. Seu rosto estava mais gelado do que estão meus dedos neste dia nublado, e estava duro como o topo da minha cabeça. Parecia um boneco, não era a sua pele, e isso me deixou ainda mais confusa. Não estou assustada, mas confusa.
Quero visitar todas as casas onde você morou, quero procurá-la escondida em alguma cozinha ou perdida em algum quintal. Quero chegar e dizer pra minha família que te encontrei, e que o seu lugar não vai mais ficar vazio. Quero dar a sua mão macia pro meu vô segurar, o seu abraço com o cheiro de café com leite pra cada filho, cada neto.
Posso ser tão racional tantas vezes... mas agora não estou conseguindo entender. Não estou conseguindo aceitar. Me sinto jogada de volta na infância, mas de um jeito não muito bom, porque eu comungo com aquelas crianças pequenas que choram e ninguém consegue fazê-las parar até que elas se cansam e param por si próprias. E nada parece me consolar. Sabe, eu preciso de carinho e sinto que as pessoas estão me dando, mas o band-aid não é do tamanho do machucado. Assim eu me sinto tão sozinha, quando as pessoas que deveriam estar perto não estão perto.
Vamos viver. Vamos viver. Vamos raspar o restinho de mel açucarado no fundo do vidro, vamos ver filmes no cinema e fazer comentários no ouvido do outro, vamos lamber os dedos, vamos ver pessoas bonitas e não ter medo de dizer "que pessoa bonita", vamos ser lives para nos vermos na hora que der vontade, não só porque a gente tem que se ver. Vamos viver, vamos viver! Vamos lamber, chupar, sentir a pele um do outro, vamos ser melhores amigos que transam, vamos ser todos os amores, vamos escrever declarações apaixonadas que enojam os mal-amados, vamos viver, vamos viver. Vamos rir juntos, vamos tomar cerveja no bar de sempre, vamos nos encontrar com os nossos amigos, vamos nos encontrar só entre a gente. Vamos viver, comemorar o fato de termos encontrado um ao outro, vamos viver, vamos VIVER.