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esse é o meu ex blog. o novo está no www.livejournal.com/users/gabiglamrocker
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
Quero começar a ler Rimbaud, T.S. Elliot. Só por curiosidade. Acho que eles têm algo a me dizer.
Eu queria agora ouvir Just Like Honey, passando no final daquele filme lindo, nó na garganta e muita leveza. Quero um amigo igual ao Bill Murray.
Que frio. Que vontade de um amigo bem grande agora. Um amigão que me levasse pra tomar sorvete no frio. Que me lembrasse que eu ainda gosto de cachaça de vez em quando. Ou que me deixasse deitar a cabeça no ombro. Ou uma amiga bem mais velha, que me entendesse e dissesse conselhos práticos. Ou um cachorro amigo de pêlo macio pra eu ficar fazendo carinho. Alguém que pudesse estar ao meu lado agora.
Estou contente, acima de tudo. Por saber que eu tenho um amor na vida.
O meu casaco está com cheirinho gostoso de limpo, e está bem branquinho. Acho que não vai parar de chover, a cidade inteira está alagada, e eu não consigo deixar de me sentir um náufrago.
Os amigos de verdade conhecem a minha vida e por isso são meus amigos de verdade. Nem sei explicar como minha alma se encheu de ar quando vi que responderam a minha carta. Pessoas bonitas, todos são. Cada um é especial de um jeito diferente. Sou muito afortunada por ter amigos assim. Se não entendi algum ensinamento, acredito que ainda vou entender. Só preciso de calma e deixar os meus poros absorverem as palavras.
Vou colar as cartas aqui, na ordem em que chegaram, pra não ocupar espaço na minha caixa de correio:
1) Muriel:
Data: Mon, 16 Feb 2004 23:30:22 -0300
Assunto: Re:Take comfort in your friends
De: "Muriel Paraboni" | Isto é spam | Adicionar endereço
Para: "vespertine_star"
Querida Gabi!
Tu pode contar comigo pro que precisar. Eu tava mesmo com muita saudade de ti e sempre penso que nosso contato poderia ser maior, já que temos tantas coisas boas e tantas afinidades humanas, artísticas e poéticas pra intercambiar. Fico feliz de poder te escrever e falar contigo. Es uma pessoa especial, daquelas que ficam para a vida da gente. Pena, claro, que nem sempre os momentos são os melhores.
Também estou passando por dias ruins, estou soterrado em tristeza, em amargura, em muita dor, justamente por causa da incompreensão de alguns amigos. Mas isso vai passar. É uma etapa que vou vencer. Perder amigos, ou melhor, descobrir que certos amigos nunca foram amigos, dói no fundo da alma. Estou triste e magoado e só esperando o tempo passar. Também me faz melhor o conforto dos amigos de verdade.
Enfim, menina, te cuida bastante. E vai adiante, es uma artista, precisa viver!
Um beijão e até logo mais
Muriel
2) Vânia
Data: Tue, 17 Feb 2004 09:35:35 -0300 (ART)
De: "Vânia" | Isto é spam | Adicionar endereço
Assunto: Re: Take comfort in your friends
Para: "vespertine. star"
poxa, amiga...vc sabe q estou aqui pra vc....desculpe a minha falta de tempo para nos vermos, mas vc pode meligar qnd quiser, acho q nesse próximo final de semana terei um tempinho...e no feriadão tmb.
bjos e se cuide...nada de tristeza.
Amigos de verdade não abandonam, viu???
3) Doug
Data: Tue, 17 Feb 2004 05:43:07 -0800 (PST)
De: "Douglas Dickel" | Isto é spam | Adicionar endereço
Assunto: i get high with a little help from my frends
Para: "vespertine. star"
Eu também amo. E sempre preciso de ti :) Mas como não
posso só te dar um abraço, preciso "ouvir a tua voz".
Compartilha os teus pensamentos. Faz bem. A gente vai
conversando. Faz bem. Eu e um colega que não trabalha
mais aqui, um tipo-Sérgio, estamos mantendo contato, e
é gostoso conversarmos, até porque, mesmo morando no
mesmo lugar, sabemos que não vamos mais nos ver.
É o Hedy. O Ursinho Hedy, como diz a Manu, depois de
ter visto e ouvido ele, e apertado a mão dele.
Estou agora fanático pelas tais fotos minimalistas.
Estou criando um site pra substituir a postagem no Fotolog.
Está em construção, mas pode dar uma olhada:
http://www.geocities.com/douglasdickel/restratista .
Ambivalência, estamos atrás de editora.
Mas é isso. Eu também sempre vou lembrar do
McDonald's e do abraço pré-despedida no metrô. Tu é um
dos meus três AMIGOS. Saudade.
4) Manu
Data: Tue, 17 Feb 2004 16:50:14 -0300
Assunto: Re:Take comfort in your friends
De: "Manu Colla" | Isto é spam | Adicionar endereço
Para: "vespertine_star"
Gabi, querida.
Ganhe um abraço bem forte e comprido meu.
:)
Eu estou aqui, sempre que você quiser e precisar. Amigo não se define por "tempo" ou coisas assim - eu digo que sempre vou estar aqui pra ti e vou.
Espero que tenhas amadurecido certas coisas dentro de ti e aprendido com a dor neste tempo de reclusão. É o que eu estou tentando fazer, querida. Aprender dói, e o tempo é um professor sem pressa, mas é exigente. Ando levando cabeçadas colossais da vida, mas ainda quero olhar pra ela com esperança e felicidade novamente.
Me escreve, se quiser.
Grande beijo,
Eu queria lhe dar um prato de flores, e plantar uma no verde de seus
olhos. Deixar florir e espalhar as Gabrielas pelo Ateliê. Pois sou um
operário da arte. Vivo da beleza, não a estética. Mas a sublime. Vivo da
criação, e criaturas essencialmente belas me atraem. Como a Gabriela, e
as Gabrielas também.
Vermelhas, amarelas, cor de vinho, ocre e até roxas. Roxas das nossas
vozes. Roxas dos milhares de Eu te amo já proferidos desde então.
Sinto saudades. Sinto um Amo vc bem forte agora.
Bjos.
Moisés
Meu querido. Também vivo da beleza, do sublime. E, most of all, do amor.
Foi um dia simbólico hoje. Vi tantas coisas espetaculares, mas tão suaves que se não olhasse com cuidado chamaria apenas de cotidiano. Pois bem, aprendi que o cotidiano é uma tela do Renoir: olhando com pressa, os melhores detalhes passam invisíveis.
Resolvi aproveitar que acordei com tempo e com sol e passei a manhã inteira andando. Atravessei a asa sul, da 206 até a 316, e vi tantas coisas fantásticas. E que saudade destas minhas pequenas coisas. O prédio da 210 sul que me pediu pra virar quadro ainda está lá. A janela pianista da 209 também. Na 208 um dos apartamentos estava em reforma e ali, bem no centro do momento, o barulho contínuo de marteladas que sempre me irritou me pareceu tão orgânico, quase divino. Os pedreiros nem sonhariam que em seus ruídos eu vi perfeição por um instante.
Entrando na 213, segui e fui seguida por uma senhora e seu cachorro. O movimento do pêlo acompanhando a coluna do cachorro, de um lado pro outro, me distraiu e acompanhou até a passarela da 215 sul, onde mergulhei o coração mais uma vez naquela manhã gelada. Era o começo do dia 7 de junho e eu deixava o Moisés naquela mesma passarela, depois de termos nos apaixonado. O meu coração continua o mesmo, e sempre que lembro este momento me sinto uma torrada dura e seca mergulhando em uma sopa cremosa e quentinha. Então caminhei até o templo budista na 316 que não estava aberto, mas foi uma alegria ler a placa em frente ao templo e poder entender o que quer dizer Terra Pura.
Na volta, mais uma vez visitei o bloco G da 114, onde minha vó Vaína morava quando eu era criança. Lembrei de tudo ao entrar na quadra e passar pelo parque e pela escolinha, e a minha garganta apertou ao atravessar o estacionamento. Lembrei da fotografia da minha mãe me carregando recém-nascida ao passar pelas pilastras vermelho-e-brancas de azulejo do bloco.
Ao chegar em casa, jà de noite, telefonei para a mãe do Tácito, que se emocionou com o contato. Eu te amo, filhinha, ela me disse com aquela voz carinhosa de sempre. Recebi e-mails rilkeanos da Vânia, da Manu, do Douglas, do Muriel. E pela primeira vez na vida conversei de gente pra gente com a vó Dilma e o vô Hilton, foi um contato profundo e verdadeiro como nunca tivemos antes.
Meus pés estão cheios de bolhas e com as unhas doloridas, mas valeu a pena pois a minha vida está mais limpa. Sinto que acordei.
coisas que eu poderia ter feito qualquer dia mas farei amanhã: - tirar sangue e 3x4
- ir caminhando até a locadora pra devolver o filme (de guarda-chuva, se estiver chovendo)
- pedir uma aula de desenho
- pintar algo, qualquer coisa
- arrumar o armário
- começar o roteiro
- ver a vó vaína e o vô mário e o meu pai
- decidir o que fazer pra ter um bom feriado.
Acabou o horário de verão e o verão vai acabar daqui a alguns dias. Hoje alguma coisa me iluminou e eu só posso parar pra contemplar essa paz que veio de repente e amputou a minha tensão. E eu estava com tanto medo deste momento, que aconteceu tão rápido vindo do nada sem eu nem vê-lo chegando. E foi tão bom.
E é tão bom voltar pra casa. Voltar pra ter saudade depois. É um tesouro poder entrar na mesma casa há 22 anos. Quase nada mudou aqui, e quando o meu priminho bebê sobe no baú ou brinca com os enfeites da sala, vejo a minha infância toda ali, me encarando de volta feito um filhote de gato. Até a voz da minha avó dando bronca quando ele mexe nos enfeites que quebram, é a mesma de quando eu era criança.
Talvez esta paz estivesse escondida dentro do pote de açaí que tomamos hoje à tarde ou talvez nas brincadeirinhas de tapa na mão no banco de trás do carro. Talvez estivesse dentro de tudo isso. Mais provável é que estivesse mesmo escondida dentro de mim.
Aquele filme de guerra me deixou meio hipnotizada. Estou debaixo de um teto, com cobertor quentinho e amor deitado ao lado, tenho vida à minha volta e não há bombas explodindo perto de mim nem gente morrendo ao meu alcance. Estou feliz porque estou vivendo - piegas, piegas but true. Não tem porque ficar tão desesperada quanto os soldados do filme. Ainda existe um som um quarto e um coração vivo.
Só que às vezes eu me assuto porque enxergo toda aquela guerra dentro de mim.
O que eu faria vendo meus inimigos destruídos daquele jeito? Será que isso me deixaria me sentindo melhor, mais vitoriosa? Qual o propósito de se odiar alguém ou algo? Será que isso realmente existe dentro do meu ser? Espero que não. É muito cruel aquilo, muito cruel. E eu acredito que tenho conseguido bons resultados em tentar ser uma pessoa melhor. O minúscuto ato de calar uma má palavra é um passo de elefante pra mim. Lento, enorme e pacífico.
Mais uma vez sei que preciso escrever pra melhorar a minha saúde, fazer uma higiene mental. Tenho um roteiro pra fazer há muito tempo e ainda não entreguei. Pois vejam todos, sou uma escritora que nunca escreveu nada. É tão absurdo quanto um ladrão que nunca roubou nada. Primeiro agarrei o título, e agora só me falta a ação. Preciso parar de escrever digitando, preciso começar a me acostumar com caderninho-e-lápis, porque não é sempre que existe um computador disponível pra eu escrever. Não posso depender de mais esta desculpa...
Sinto que tenho atrasado muito a minha vida. Estou com prisão de ventre há uma semana, e tenho comido mais e dormido menos e pensado e feito nada. Nesta manhã de sábado o sol está lindo, depois de uma semana de chuva, e eu queria deitar de biquíni na varanda e me sentir na praia, mas parece que o sol não está me esquentando. E nem biquíni eu trouxe pro fim de semana. Queria vestir um vestidinho rosa e florido mas eu só trouxe calça jeans pra cá, precisaria buscar o vestidinho no armário da casa da minha avó. Eu preciso morar em algum lugar, pôr o rosto pra fora da janela e deixar a brisa limpar o meu pulmão, desentupir a minha alma e o meu ventre, pra que eu possa dar à luz alguma produção, por mínima que seja. Se eu escrever uma página de roteiro, já posso mandar pro Mo desenhar.
Ontem li uma designer dizendo que o medo é sua maior fonte de inspiração. Isso me deixou chocada, porque é óbvio que pra mim e todos os animais do mundo o medo é a maior fonte de inércia, de intoxicação. Eu agora mesmo estou com medo de começar uma história porque a qualquer momento alguém pode chegar por trás de mim e com um mínimo sinal de movimento estourar a placenta onde as minhas palavras se formam. Daí será mais um aborto.
Mas "a morte gera a vida", já dizia o Astromato. Venho pensando muito nessa frase. O Japão tornou-se potência após a bomba atômica. Depois de se acostumar com o escuro, os olhos passam a ver. (Douglas, no hipérboles.)
Estou no ex-trabalho, vim buscar as minhas coisas e assinar o papel do salário-fantasma. Chegando no estacionamento tive a tentação de me sentir mal, e de ficar triste porque o Moisés passará a tarde pintando no Vilela e enquanto isso eu não consigo pintar nada. Mas eu resisti quando li essa frase bonita do Doug e li o blog lindo da Manu. Isso me iluminou. Porque nessas horas eu me lembro de algo que eu já sei mas esqueço: que a vida é assim bonita, e tudo isso aconteceu comigo poeque eu estava rezando secretamente para ter tempo pra produzir.
Pintar como eu gosto e viver feliz, é assim que deve ser. Os artistas estão pintando agora esta tarde, e eu também posso fazer isso, por que não? O meu caminho na arte não precisa ser igual ao deles. Só que escolher um caminho diferente é muito mais difícil e exige mais força e, principalmente, mais prática.
Agora eu tenho tempo e tenho idéias e tenho dois ótimos convites que não posso largar, não posso mesmo! Oportunidades estão soltas o tempo todo, a sorte é sólida pra quem a vê, e ela está na minha frente me pedindo pra agarrá-la. A vida está bem aqui do meu lado e o meu emprego precisou morrer pra eu vê-la.
Ficar sem emprego e sem dinheiro era algo que há dois dias atrás me deixava triste, e que hoje eu percebo como uma nova chance, a chance de fazer tudo o que eu quero fazer. Agora eu tenho tempo e isso vale muito. Vou passar a tarde pintando também. Só que eu não vou aprender nenhuma técnica por enquanto, porque eu preciso antes aprender a pintar com a alma, coisa que nenhum Vilela ensina!
Eu estou pronta :)
E o sol voltou, hoje está quente.
Você me faz feliz, e espero muito poder mudar a minha
atual visão de mundo que tanto me dói. Eu quero ser
mais leve e mais feliz pra te acompanhar em todas as
ocasiões. Porque você me conhece de verdade, você vê
dentro de mim e conhece a pessoa que eu sou lá no
fundo. E você sabe que essa pessoa é alegre e legal.
Te amo, e preciso de você pra ficar sempre bem.
Você é o meu amor, você me levanta.
Gabi.
é uma guerra de minutos. em um minuto tudo está bem, em outro tudo está mal. em um dia faz sol. em outro, chuva. quando eu penso durante um momento feliz, que não vou ficar triste nunca mais... quando eu acho que as fantasmas morreram só porque se esconderam atrás das nuvens... quando eu acho que não vou mais cair nas armadilhas da minha mente... eu vejo que estou muito enganada e que esse não é o verdadeiro equilíbrio. porque neste estado de mente as coisas ficam ora muito brancas ora muito pretas.
como eu queria não sentir nada disso.
se eu continuar assim, vou me afogar no rio da minha vida.
preciso aprender a nadar.
preciso ver filme besta e comer pipoca ou tomar leite com nescau.
cadê a porra da felicidade agora? eu devia estar feliz agora.
o rilke disse que a solidão é o melhor abrigo.
o rubem alves disse que a solidão é amiga.
criar é algo muito solitário.
existir também.
e preciso me adaptar a isso
pois isso é a vida.